Primeiros Capítulos

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Primeiros Capítulos

Mensagem por CJSilveira em Sab Jan 10, 2015 6:27 pm

Prólogo




Houve um tempo em que a terra pulsava vida, alimentando as terras secas, satisfazendo os vales cobertos de grama verde e amamentava os mares plácidos numa sombra do mundo perfeito. Os animais obedeciam a lei da sobrevivência, a humanidade evoluía, destruía e acabava se destruindo no processo. O homem trabalhava com o propósito do sustento, cobrindo suas necessidades e vaidades que surgiam quando tomava posse de tudo que suas mãos tocavam - ou quando um conhecido tomava vantagem comprando um carro mais novo, uma casa maior, uma mulher mais jovem e mais bonita.

"-Tenha um bom dia “-eles costumavam dizer, disfarçando o orgulho e a inveja por trás da parede de dentes brancos. Por dentro, a pele aquecia, as mãos suavam e o cérebro lutava para descobrir um meio mais rápido e menos sujo de crescer, de ultrapassar e de enriquecer. A política se envolvia na sociedade como uma criança recém-nascida se agarrava ao seio materno, sugando ávida o alimento que brotava de outrem - e que no final satisfazia apenas suas próprias vontades.

  Mesmo apesar das crises, a vida no planeta terra conseguira se desvencilhar da extinção, sendo levada na eterna montanha-russa das possibilidades, das chances que lançavam seus dedos lúgubres sobre os trilhos já instáveis da história. Ninguém se preocupava com o amanhã, ninguém se interessava pelas consequências tardias dos próprios atos e nem dos outros. Pois o hoje era fundamental, mas o amanhã se dividia num labirinto de caminhos desconhecidos que, de forma alguma mudariam o presente. Até que um dia a terra acanhou-se, amedrontada pelo desastre iminente. As televisões chiavam a notícia, mas era a boca humana que realizava o trabalho mais eficiente.

"-O Mundo vai acabar!"-alguns diziam, comentando de maneira atrapalhada, tentando não transparecer o terror e o desespero que se espalhava de casa para a vizinhança, do bairro para a cidade e disseminava-se pelo mundo como uma profecia macabra e impiedosa.

"-Volte para Jesus enquanto ainda há tempo!"-gritavam os profetas, erguendo-se sobre a lataria dos automóveis, ostentando placas borradas em tinta preta e vermelha as palavras 'salvação' e 'destruição' numa mesma frase mal escrita e sem sentido. A segurança dos policiais era tímida, frágil e quase não causava impacto visto as manifestações que cresciam exponencialmente sobre as cidades, invadindo prédios, ruas e praças.

"-Serão novos tempos. Sobrevivemos à era do gelo e poderemos sobreviver a isto.” Estes eram os mais positivos, cobertos pela capa de seus próprios medos e infectados pelo próprio otimismo. Crianças choravam, cidades foram evacuadas, dando lugar a cidades fantasmas que sussurravam pragas ao vento. Em pouco tempo, o caos tomou conta da civilização.

     E lá estava o motivo da desordem, vagando pelo espaço enquanto destruía pequenas estrelas, ofuscando o brilho de outros sóis e dizimando constelações. A superfície da massa era negra e porosa - uma bomba de poder destrutivo inimaginável caminhando com imponência e certa vaidade pela galáxia, deixando para trás nada exceto a destruição propriamente dita e uma calda de chamas acobreadas. Em seu destino, a minúscula terra aguardava o fim de seus dias, assim como um roedor espera carecidamente que a serpente faminta desista do bote e rasteje pela areia até desaparecer no mesmo lago de onde surgira. Mas ele continuava impiedoso, quase como se dissesse: "Vim até aqui para te encontrar. Espere por mim!". Uma vingança cruel. Cruel e desonesta.

   A princípio, do ponto de vista da terra, era possível apenas perceber uma minúscula esfera soturna crescer gradativamente no céu. Ao passo em que se aproximava e suas dimensões cresciam, o horizonte tornou-se acobreado, púrpura, até que por fim atirou sua vasta cortina negra sobre o horizonte irregular. Agora homens choravam, perdiam a sanidade, espalhavam suas doenças e parte do que podia ser considerado humano foi se perdendo em disputas por território e alimento. A sobrevivência sobrepujava os princípios até fazer com que o homem voltasse a se portar como um animal. Os que desistiram da fuga e acolheram a morte observavam atentos a chegada do grande meteoro. Os olhos marejados, as mãos tremulas e o consciente se perguntando os motivos pelos quais haviam desistido de ao menos tentar.

"Eu poderia ter colocado Suzan e as crianças na caminhonete velha do papai e dirigir sem rumo." -dizia o fazendeiro, as mãos entrelaçadas com sua mulher que chorava copiosamente em seu ombro. As crianças abraçavam as pernas da mãe, tremendo freneticamente perante o medo do fim.

"Deveria ter estourado meu cartão, transado com quem eu quisesse sem me preocupar com o estúpido do Steve." -chorava a adolescente problemática, bebendo uma pequena dose de conhaque de cinco em cinco minutos. Logo o horizonte foi tomado por um intenso clarão. O som aumentava, e aumentava, e o rádio chiava novamente:

"O meteoro irá colidir com a lua em menos de meia hora. Isso poderia alterar o ponto de impacto, se tivermos sorte... caros ouvintes."

  E então a claridade cegou, o jato da explosão levou casas ao chão, estraçalhando arranha-céus e derrubando florestas inteiras. No céu, o grande ofensor despedaçava a lua em duas partes, esfarinhando uma e arremessando a outra em direção ao nada. Com a força do embate, uma intensa chuva de pequenos meteoritos incidiu sobre a superfície já destruída da terra. Crateras foram abertas sobre cidades, lagos desapareceram e a sorte não havia chegado aos que sobreviveram até aquele momento. Mesmo com a velocidade reduzida e livre de um quinto de seu peso, o meteoro seguia em direção ao planeta terra.

"-Eu ainda não me esqueci de você." -ele parecia dizer.

  Uma grande ventania soprou a face destruída do planeta. Logo as coisas tornaram-se piores, personificando o pesadelo daqueles que acreditavam remanescer ao grande impacto que abalaria a história da vida na terra de uma vez por todas. A força de atração causada pelo centro gravitacional do meteoro começou a sugar tudo que estivesse a seu alcance. Primeiro, monumentos e maravilhas foram destruídos como uma linha de dominó inabalável, seguindo seu instinto de destruição por onde quer que houvesse pedra sobre pedra. Conforme o desastre se aproximava, negro como a morte e tão fria quanto a mesma, a força aumentava, sugando postes elétricos, descolando quilômetros de asfalto inteiros até deixar apenas a mínima parcela que se agarrava firme ao solo. Casas e prédios se descolavam de sua base, sendo arrastados pelo céu e girando em um tornado de destruição e desespero.

  Matt enfiou a mão no bolso, retirando um isqueiro prateado e um maço de cigarros. Sugou a fumaça e saboreou aquele momento, sorrindo de forma insana enquanto pensava em tudo que havia passado naqueles últimos meses. Órfão desde os doze, morou com os tios durante vinte anos num pequeno casebre a beira da praia. Foi lá que conheceu Sara, observando o reflexo da luz do sol desviar das águas turbulentas e atingir a face corada da mulher que tanto amaria. Logo veio o pedido de namoro, ajoelhado sobre as areias e sustentando a pequena caixinha que mudaria suas vidas.

"Eu aceito" -ela respondeu, segurando as bochechas como se fosse capaz de conter as lágrimas de emoção. Um beijo selou aquele momento e um quarto pequeno daquele mesmo casebre tornou-se o lar do enamorado casal. Ao saber do desastre, Sara pediu demissão do restaurante onde havia trabalhado durante cinco anos e observou Matt ser abandonado pelos tios num diálogo curto.

"Perdoe-nos Mattie, mas pegaremos o primeiro voo para a Austrália. Nossas economias serão o suficiente para nos manter por lá até que tudo passe..."- e aquelas foram as últimas palavras que Matt ouviu de seu tio. Sozinhos, gastaram boa parte do dinheiro em um estoque de alimentos e água. Fortaleceram as paredes do casebre e fecharam as janelas com tábuas de madeira para impedir invasões e furtos. No dia antes da destruição da lua, fizeram amor da maneira mais apaixonada e quente, deitados sobre um colchão de água antigo que costumavam usar para visitas e degustando um bom vinho tinto.

Matt apagou o cigarro na tampa da garrafa e abraçou Sara, ouvindo o som da destruição que ecoava lá fora. Haviam passado três semanas no porão e imaginavam que, ouvir a casa ser despedaçada pela chuva de meteoros fosse a última parte daquele tormento. A ventania soprou a poeira, os fios de cabelo de Sara ergueram-se chicoteando o rosto de seu esposo.

"O que está havendo, querido?"-chorou ela, agarrando-se assustada aos ombros de Matt. O assoalho do casebre rangia estridentemente, folhas de papel embolavam-se num tornado de poeira e lixo que havia acumulado durante todo aquele tempo.

“... Eu não sei, amor." -sussurrou ele, beijando a testa de sua amada e imaginando que talvez seria a última vez que sentiria o cheiro adocicado dos cabelos de Sara. Um estralo forte e lá se foi a porta de madeira do porão, rodopiando pelos ares. Matt viu prédios erguendo-se no ar, rebanhos inteiros sendo despedaçados ao se colidirem com os destroços do que seria o hospital municipal. Sara sentiu-se estranha e quando percebeu já estava flutuando em direção à boca do tornado. Cravou as unhas no chão e chorou, gritando:

"SOCORRO MATTIE!"

"Segure minhas mãos!"-disse ele, agarrando os pulsos de sua mulher como se a própria vida estivesse sendo sugada pela força. O céu negro girava em destruição e a força aumentava a cada segundo. Matt viu Sara perder duas unhas em sangue e gemidos até ser sugada de vez num grito ensurdecedor de desespero. Matt perdeu o fôlego e tudo desmoronava em sua folga. Viu as águas do mar recuarem até serem sugadas em mistura com a areia infindável da praia, viu os restos do porão sendo absorvidos pela intensa força e por fim, viu-se flutuando em direção à morte. O cenário era desesperador, mas pensou por um momento que era privilegiado por ver a terra sendo despedaçada num buraco negro sem fim. Montanhas se deslocaram, a massa de água girava pelo céu até ser engolida pelo grande tornado e ainda pode ver o grande cristo redentor ser descolado de sua base e flutuar até se juntar ao ralo no céu. Matt gritou, chorou e por fim fora esmagado por uma parede em pleno ar, desmembrando-o em sangue e ossos e juntando-se por fim à poeira cinzenta.

  Poucos minutos antes do impacto, cidades inteiras ergueram-se no ar, mares foram sugados pela boca insaciável do buraco negro e aquela parte da terra tornou-se apenas uma grande superfície lisa de terra. Para alguns, aquela visão poderia trazer o pensamento de que o planeta nunca estivera tão limpo, tão livre das construções cinzentas e frias que o ser humano depositava dia após dia, estendendo-se por continentes e crescendo através das nuvens. E então o grande meteoro beijou sua amada terra. O estrondo ensurdecia, o vento soprava a poeira e o solo trincava sobre a face negra do invasor. Permaneceu ali, arrastando tudo que via pela frente, abalando as estruturas do planeta e penetrando as vísceras da terra. Ao se afastar, deixara apenas o grande buraco onde segundos antes havia preenchido, arrastando novamente os destroços de pedra e terra. Finalmente, o meteoro entrara na órbita do planeta, mantendo a sucção permanente.

  Do outro lado da terra - onde o impacto não havia sido direto, os sobreviventes se uniram em um só lugar, onde a força massacrante da gravidade não os atingia, recuperando o que parecia ter se perdido antes mesmo do grande desastre. Construções foram reerguidas, rebanhos foram engordados e muros cercavam o que parecia ser o último respiro da humanidade. A recém-fundada Lasttown.

  O que as pessoas de lá não sabiam é que a vida cria seus próprios meios para sobreviver, burlando os sistemas e até mesmo os desastres para continuar evoluindo. O lado destruído da terra fora chamado pelos habitantes de Lasttown de Deserto Negro e mesmo lá a vida continuara. Cinco em cem pessoas sobreviveram ao fim dos dias, seguidos por um profeta que afirmava que os homens deveriam continuar sua existência debaixo da terra. Túneis foram cavados numa labuta crente, penetrando como vermes na terra e construindo suas próprias vias de transporte e de alimentação - essa que, por sinal era baseada em raízes e pequenos vermes terrestres. Os que não morreram devido às doenças tornaram-se canibais com o passar das décadas, evoluindo conforme o organismo gritava. A pele foi tornando-se branca, frágil e escamosa. Chifres brotaram do crânio, despontando conforme os anos passavam e o ser amadurecia. Um único olho vermelho acompanhava a boca coberta de presas afiadas. O ser humano havia se aprimorado mais uma vez.

"Não se aproxime dos limites do Deserto Negro."-as mães diziam, ensinando a primeira lei de sobrevivência a seus filhos. Com a comida escassa e os limites do deserto negro se estreitando cada dia mais, os vermes iniciaram ataques à Lasttown em busca de alimento e territórios inexplorados. Cabras amanheciam sem cabeça, cobertas de sangue e abertas da garganta ao abdômen e bovinos estripados exibiam sua carcaça fétida pelos gramados encharcados pelo líquido rubro. Até que corpos humanos começaram a aparecer, abertos, rasgados e mutilados. Famílias inteiras assassinadas pelos vermes do deserto negro, boa parte deixada em ossos, pois a carne havia sido feita de alimento pelos invasores.









PRIMEIRA PARTE
Capítulo I

  Donovan era o tipo de garoto que não esperava que nada de especial ocorresse em sua vida. E estava certo durante bons longos anos. Quero dizer - a sobrevivência nos subúrbios de Lasttown não era algo que se pudesse chamar de especial, furtando cá e acolá um pedaço de pão agridoce, metade de uma fruta podre qualquer ou bisbilhotando a vida dos nobres que, de vez em outra, davam as caras num resquício de filantropia barata.

"Danem-se eles!"-pensava Armand Donovan, cuja aspiração fugia dos padrões burgueses que corroíam a política da última grande metrópole do mundo. Era isso que pensava, pois na verdade, nunca havia saído da província e as chances de escoar sobre os dedos da guarda eram lastimáveis com um tempero azedo - do tipo não agradável, mas instigante - de improbabilidade. Guarda Provincial, os famosos homens da terra, aqueles que protegiam a metrópole de ataques externos eram os mesmos que faziam de Lasttown uma prisão suja, enclausurada e abarrotada com aqueles que sobreviveram ao fim do mundo antigo.

  Neste dia, Donovan havia passado longas horas observando o espaço distorcido sobre a silhueta das torres e de outras construções espirais, banhadas pela luz fantasmagórica do grande meteoro. Deslizou de cima da torre esturricada em um pulo, amortecendo o impacto com as pernas flexionadas e as mãos espalmadas sobre a terra prateada. Teve de amarrar os cadarços da bota direita duas vezes antes de se colocar em corrida e pensou por um segundo em descalçar aquele trapo sujo de lama e prosseguir a pés descalços. Era costume do garoto perambular três ou quatro vezes por semana pela feira rural, dando continuidade à sequência de furtos que embocavam num estômago farto e uma bolsa cheia de tortinhas de limão. Porém, naquela noite, Donovan estava em busca de algo maior, algo que pudesse alimentar sua mãe enferma por uma quinzena ou menos.

  Vagou por uma ruela escura e estreita, frequentada apenas por mendigos e pedintes que se alastravam num fila de mau cheiro e insanidade. Observou uma mulher, não muito velha falar alegremente com sua própria sombra estampada na lona suja e argumentando insistentemente sobre os motivos pelos quais a sombra havia enforcado sua gata. Donovan desceu os olhos e pode ver o animal duro, enlaçado pelo pescoço com um pedaço de corda puída. Sentiu o cheiro da morte ao passar por ela e aquilo o fez espirrar. Desviou por uma fresta entre duas pequenas barracas, pisando numa poça enlameada de esgoto a céu aberto. Lembrou-se por fim de cobrir o rosto com o capuz, desvanecendo a face procurada pelos senhores da lei. Logo o barulho tomou conta do corredor iluminado, repleto de fiações clandestinas, de barganhas, de propostas indecentes, de sorrisos amarelos e de pontapés levados pelos fundos. Manteve o rosto baixo, levando as mãos cerradas logo ao lado do cinto de couro preto, cujos botões escondiam uma adaga de prata suja - também furtada. Sentiu o cheiro de pães esturricados, de tortas de amora, linguiça engordurada e de massas cozidas há muito por um insano comerciante cego.

   Mais alguns passos e lá estava, ao final do corredor, brilhando sobre a luz pálida de uma fogueira crepitante: uma grande ave rosada, brilhante pela gordura e girando incessantemente através de um graveto basto de alacóia. Ponderou por uns instantes sobre as rotas de fuga e pontos de retirada enquanto se aproximava vagarosamente da cabana ao fim do corredor. Poderia escapar pelas laterais, caso o corredor explodisse em completo caos... . Mas lá estava ele, erguendo as mãos ao passo em que outro freguês o cobria do ato, gesticulando, negociando ou... Flertando? Por um segundo Donovan percebeu que o dono da barraca era na verdade uma garota ruiva, coberta de sardas e com uma trança mal feita pendendo sobre o ombro descascado por um dia todo em exposição ao sol.

  Mas ora! Para tempos como aquele, a beleza da ruiva era peça pouco vulgar em Lasttown. Logo as mãos apertaram o frango, um dos polegares acabou se enfiando no orifício da ave e Donovan sentiu o calor do alimento queimar a ponta de seus dedos. A moça soltou um grito, assustando o cliente parrudo que acabou caindo de costas e se espatifando no chão duro. Seu sorriso de satisfação veio e foi-se embora num piscar de olhos quando o mesmo homem ainda atirado no chão agarrou o pé de Armand, abraçando a bota suja sobre o peito taurino.

"Seu bandoleiro de merda! Eu vou lhe enfiar um..."-a frase do homem fora interrompida pelo som do seu nariz se partindo. Donovan ainda o chutou duas vezes antes de se livrar da bota direita, engatinhando pelo corredor até conseguir colocar suas pernas em movimento.

"Ladrão! Ladrão!"-eles gritavam, trazendo com o grito uma fila densa de justiceiros com estacas, pedaços de madeira e chicotes de couro. O garoto avançou entre um par de cabanas, deixando para trás a multidão que o perseguia. Um chuvisco frio começou a cair, levantando a poeira de quase quatro meses de seca, umedecendo a terra que, posteriormente se transformaria em lama.

  Desfez-se do casaco e do capuz, arregaçando as mangas da camisa de linho e pondo-se em direção à pacata vila velha. Era mais chamada como velha prostituta, pela facilidade que os ladrões, em tempos atrás, entravam e saiam sem serem pegos pelos guardas provinciais. Vila velha nada mais era que um bairro pobre, situado ao sul de Lasttown. Um conjunto de casas pobres, talhadas em madeira na sua grande maioria e que, por fato eram as melhores. Não era o caso da barraca suja, rompida e rasgada onde Armand morava com sua mãe.

  Dobrou a esquina, agora diminuindo o ritmo dos passos e olhou sobre o ombro por alguns instantes. Estava sozinho, esquecido. Donovan aprendera a se tornar sua própria sombra.

  Entrou pela porta dos fundos sem bater, tirando a bota que lhe restara e jogando a ave assada sobre a mesa de madeira. Um vasilhame de alumínio velho e enferrujado aquecia meia jarra de água sobre uma chama escassa. Pela luz escarlate do fogo, pôde ver a silhueta magra e ossuda de sua mãe - pobre por natureza, injustiçada pela vida e doente pelo destino. Sabia que não tardaria até que a morte, presunçosa e fria, abraçasse de uma vez o corpo febril da senhora Sel’ine - um nome tão belo para substituir a doçura que precocemente abandonara sua face, bexigada e repleta de vilosidades e membranas avulsas sob os olhos caídos.

"Pobre mulher..."-disse o garoto, como se o tom ameno de sua voz fosse capaz de abstê-la do sofrimento. Sel’ine Donovan era filha única de um marceneiro doente. Sua mãe abandonara a vida cedo demais, de maneira violenta, esmagada por dois equinos numa perseguição dos vilenos de Albuquerque. Casou cedo, com o dono de uma ourivesaria famosa do centro comercial de vila velha. Pena que o destino é cruel e calculista, levando-o também para uma cova rasa e mal coberta, deixado às moscas ávidas pelas carnes frias. Tentou manter o negócio até que a robustez da doença a fez vender o comércio para um açougueiro vigarista. Observem o escárnio! Combinou metade do que valia e pagou metade do que havia combinado. Deixada à própria sorte, a cabana de lona fora o único lugar que lhe acolhera. Donovan, como gostava de ser chamado, ou Armand, seu primeiro nome, era tudo que lhe restara.

  O pequeno homem desejou por um instante viver em outra época, tempos antes do grande meteoro desequilibrar o espírito da terra, onde a pobreza não era tão pobre e o homem não tão homem.

  Umedeceu uma esponja de água morna e principiou os cuidados, deixando o tecido lamber o suor da face, afastando os tremores e o mau cheiro que lhe impregnava o corpo e as vestes. Colocou-a sentada com cuidado, apoiando a coluna e a nuca com um bolo de farrapos não mais limpos do que se podiam encontrar.

"Trouxe carne assada." -disse ele, enquanto se dirigia até a mesa de madeira no canto do barraco.

"Frango assado. Dê-me uma grande asa!"- a intenção era um grito, a realidade um grunhido fraco e inconstante. Às vezes a febre judiava e trazia consigo as alucinações, deixando por vezes fraca, por outras desacordada. Trouxe-lhe a carne, deitando-se ao seu lado enquanto pensava nas malditas horas passadas. Levou com cuidado a cabeça de Sel’ine até o ombro e satisfizeram-se até cair num sono sem sonhos. Até que a barraca veio abaixo e gritos estouraram, despertando-os do caloroso refúgio provisório.











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Re: Primeiros Capítulos

Mensagem por Vuzziikii em Dom Jan 11, 2015 6:26 am

Ótimo capítulo! Li quase tudo, mas é muito grande e cansativo ler tudo. Li até o Capítulo 1 até '' antigo.''
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Re: Primeiros Capítulos

Mensagem por CJSilveira em Dom Jan 11, 2015 10:38 am

@Vuzziikii escreveu:Ótimo capítulo! Li quase tudo, mas é muito grande e cansativo ler tudo. Li até o Capítulo 1 até '' antigo.''

Obrigado pelo comentário Vuzziikii. O prólogo realmente é um capítulo muito extenso e exige um pouco de concentração para que você entenda o universo em que Lasttown está situado. Mas logo em seguida, os capítulos vão se tornando mais abrangentes e falam sobre os personagens que fazem parte das tramas. De qualquer forma, tente terminar de ler o capítulo 1. Surprised
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Re: Primeiros Capítulos

Mensagem por Renato Valente em Dom Jan 11, 2015 12:28 pm

Eu ja li não só o prologo e o primeiro cap, mas todo o livro. E simplesmente magnifico. A forma como o autor escreve e harmoniosa e faz com que possamos imaginar exatamente o que ele imaginou ao escrever. A sintonia com o autor e fantástica. As descrições do cenário são fantásticas e podemos dizer agora com certeza que a literatura brasileira começa novamente a tomar um novo e bom rumo. Estou particularmente cansado desses autores sem criatividade que estamos tendo por ai.

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Re: Primeiros Capítulos

Mensagem por CJSilveira em Dom Jan 11, 2015 12:38 pm

@Renato Valente escreveu:Eu ja li não só o prologo e o primeiro cap, mas todo o livro. E simplesmente magnifico. A forma como o autor escreve e harmoniosa e faz com que possamos imaginar exatamente o que ele imaginou ao escrever. A sintonia com o autor e fantástica. As descrições do cenário são fantásticas e podemos dizer agora com certeza que a literatura brasileira começa novamente a tomar um novo e bom rumo.  Estou particularmente cansado desses autores sem criatividade que estamos tendo por ai.

Eu realmente fico muito feliz em receber elogios como este. Por mais que o autor as vezes descreva cenários e personagens, o leitor não consegue se identificar com as mesmas características. Algo que pode ser considerado belo para o escritor, pode muitas das vezes ser estranho ou até mesmo bizarro. Obrigado por acompanhar a história Renato, você é muito especial.
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Re: Primeiros Capítulos

Mensagem por iMac em Dom Jan 11, 2015 12:55 pm

Meus parabéns, adorei acho realmente uma coisa magnifica.
Acho que terá muito sucesso.
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Re: Primeiros Capítulos

Mensagem por CJSilveira em Dom Jan 11, 2015 12:57 pm

@iMac escreveu:Meus parabéns, adorei acho realmente uma coisa magnifica.
Acho que terá muito sucesso.

Muito obrigado pelo apoio IMac! Smile
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